Doutrina Monroe, assim chamada por ser criada durante o governo do presidente norte-americano James Monroe, foi anunciada ao Congresso dos Estados Unidos no dia 2 de dezembro de 1823. Teve como objetivo a não interferência dos países europeus nos países americanos e, sob o slogan “América para os Americanos”, pretendia defender as nações recém-tornadas independentes de todo o continente americano de uma possível recolonização.
Podemos dizer que as consequências desse anúncio, apesar de não serem incisivas nos anos seguintes à sua proclamação, fizeram-se presentes na justificativa da interferência dos Estados Unidos nos processos emancipatórios de países como Cuba, Porto Rico e Panamá no final do século XIX e começo do XX. A perspectiva ideológica do Destino Manifesto, nesse sentido, integrada à Doutrina Monroe, encontrou terreno fértil para se fortalecer institucionalmente e firmar a cultura expansionista e imperialista dos norte-americanos.
| Moeda de 1 dólar americano com o rosto de James Monroe, quinto presidente dos Estados Unidos. |
Resumo
Diante do contexto de independência das nações americanas e da formação da Santa Aliança após as guerras napoleônicas e o Congresso de Viena, a Doutrina Monroe foi criada e anunciada nos Estados Unidos em 1823.
A Doutrina Monroe tinha como objetivos a não interferência dos países europeus nos países americanos e que nenhuma nação americana fosse recolonizada. Defendia, também, a não intervenção nos assuntos internos dos países americanos e a não intervenção dos Estados Unidos nos conflitos entre os países europeus.
A Doutrina Monroe carregava o pressuposto ideológico do Destino Manifesto dos Estados Unidos, estabelecendo, ao longo do século XIX, o objetivo de expansão dos seus territórios, tanto a oeste do país quanto em direção a determinados países no Caribe, como Cuba, Panamá e Porto Rico, no final desse mesmo século.
O expansionismo militar, político e econômico norte-americano ao longo do século XX teve sua origem nas premissas da Doutrina Monroe, tendo como consequências a ação imperialista dos Estados Unidos em todo o mundo.
Contexto histórico da Doutrina Monroe
A independência política das antigas colônias europeias já havia sido garantida praticamente em todo o continente americano. Entretanto, os países que resultaram desse processo de independência por toda a América, iniciado com os Estados Unidos, eram jovens e ainda portavam forte marca da sombra colonial.
A Europa havia passado por um longo processo de conturbações políticas, iniciado pela Revolução Francesa e finalizado com o Congresso de Viena (1814-1815), após o fim das guerras napoleônicas. A Prússia, a Áustria e a Rússia formaram a Santa Aliança, com o propósito de defender o monarquismo, e, em consequência, autorizaram incursões militares visando restabelecer o domínio colonial espanhol.
Além dessa ameaça monárquica resultante do final das guerras napoleônicas, os Estados Unidos se viam sob o risco de um novo conflito com o Império Britânico, com quem haviam travado a chamada Guerra Anglo-Americana em 1812.
De toda forma, as disputas políticas e territoriais travadas pelos Estados Unidos tinham ainda o âmbito regional, quando seu domínio e capacidade de influência e imposição do poder ainda eram considerados menores. A criação da Doutrina Monroe tinha, a partir desse contexto, uma motivação retórica interna e externa, mas com a intenção clara de estabelecer um campo de atuação internacional mais incisivo dos Estados Unidos.
Destino Manifesto
O “Destino Manifesto” diz respeito à crença comum, principalmente no século XIX e na população dos Estados Unidos, de que os colonizadores americanos teriam uma virtude especial e que deveriam se expandir por toda a América. Ele expressa a crença de que o povo norte-americano foi escolhido por Deus para liderar as nações americanas e, por fim, todo o mundo.
Tendo em vista esses elementos, o chamado Destino Manifesto se fortaleceu e se complementou com a instituição da Doutrina Monroe, impondo-se como um pressuposto sobre a população norte-americana e sobre os seus líderes. Expressou uma profunda crença, com origem nas características religiosas da colonização norte-americana, tendo por base a virtude do colono como responsável por dar início a um novo mundo.
Apesar de ser disseminada desde pelo menos a independência norte-americana, com a ideia de proclamar a liberdade para a humanidade na Declaração da Independência, não constituía consenso entre a população e os governantes. Adquiriria estabilidade ao longo do século XIX, se firmando institucionalmente com a Doutrina Monroe em uma missão clara de difundir as instituições próprias dos Estados Unidos. Seu fundamento estava na ideia de disseminação da liberdade e da democracia, como o destino dado por Deus, de modo a salvar o resto do mundo.
Objetivos da Doutrina Monroe
O principal e inicial objetivo da Doutrina Monroe era o de não interferência dos países europeus nos países americanos, devido ao contexto de pós-independência e da formação da Santa Aliança após as guerras napoleônicas. Defendia, com isso, que nenhuma nação americana fosse recolonizada.
Junto a esse objetivo, estava o de não intervenção nos assuntos internos dos países americanos, em especial em questões econômicas. Estabelecia, também, a não intervenção dos Estados Unidos nos conflitos entre os países europeus.
Enquanto a Doutrina Monroe carregava o pressuposto ideológico do Destino Manifesto dos Estados Unidos, estabeleceu, ao longo do século XIX, o objetivo de expansão dos seus territórios, tanto a oeste do país quanto em direção a determinados países no Caribe, como Cuba, Panamá e Porto Rico.
Consequências da Doutrina Monroe
As primeiras e mais evidentes consequências da Doutrina Monroe se encontram no campo da retórica da política internacional dos Estados Unidos. Num momento inicial, o discurso e a resolução que ela trazia de se distanciar dos conflitos europeus e de reivindicar uma América para os americanos tinham impacto maior junto à sua própria população. Funcionava, assim, como elemento de soberania diante do mundo e de coesão política interna. Entretanto, sua finalidade de expansão e de domínio militar, político e econômico sobre todo o continente americano foi se ressaltando ao final do século XIX.
A primeira região alvo da política expansionista dos Estados Unidos foi o Caribe. Entre 1891 e 1912, os estadunidenses realizaram intervenções militares no Haiti, Nicarágua, Porto Rico, Cuba, Venezuela, República Dominicana, Colômbia, Honduras e Guatemala. Fora dessa região, o Chile foi alvo de ação militar em 1891.
Os casos de Cuba e Panamá foram notórios. Com o pretexto de garantir a independência de Cuba, os Estados Unidos deflagraram um conflito com a Espanha em território cubano, com a intenção de garantir a independência do país caribenho. Com a vitória, os norte-americanos garantiram ainda a conquista sobre as Filipinas, a Ilha de Guam e Porto Rico. Nessa intervenção, instituiu-se a chamada Emenda Platt na Constituição cubana, em que o país deveria aceitar a intervenção em assuntos políticos e abrigar uma base militar na região de Guantânamo.
Em 1903, os Estados Unidos deram assistência militar ao Panamá, em sua independência em relação à Colômbia. A ação garantiu o direito aos Estados Unidos de construir o canal que leva o nome de Panamá. Hoje o canal, apesar de não ser administrado exclusivamente pelos Estados Unidos, é um dos principais pontos estratégicos do comércio marítimo mundial, já que liga o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico.
A proclamada América para os americanos, proferida pela Doutrina Monroe, associada à doutrina do Destino Manifesto, converteu-se, assim, em poderosas ferramentas ideológicas de motivação cultural e política para o ideal expansionista e intervencionista norte-americano. São doutrinas que assimilaram e se encaixaram plenamente ao contexto de expansão dos nacionalismos ao longo dos séculos XIX e XX, e pavimentaram o caminho para a incursão imperialista que marcaria a atuação dos Estados Unidos no mundo até os dias atuais.
https://brasilescola.uol.com.br/historia-da-america/doutrinamonroe.htm
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